(Apresentação do filme para as aulas de Teoria do Conhecimento)
Até 2005, Dona Estamira não era nada mais do que apenas mais uma pobre, preta e louca pessoa que vivia, para garantir seu sustento, de catar e vender objetos do Aterro Sanitário "Jardim Gramacho", um local que recebe em média 8 mil toneladas de todo o lixo produzido diariamente pelos habitantes dos municípios que compõem a densamente povoada Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, incluindo boa parte da zona urbana da Capital do Estado, que é a rica e turística cidade do Rio de Janeiro.
Transformando-se na personagem principal do documentário Estamira, cujo título é seu original nome próprio, essa senhora, antes uma humilde, fragilizada e desconhecida catadora de lixo, que aos olhos de quem passa pela rua não se distinguiria se é gente pobre doente ou pobre diabo, se é mendigo mal intencionado ou bêbado demente, mas que da qual de qualquer modo em geral não se espera nada de especial e até se busca evitar - essa senhora, revela-se, ao longo do documentário, uma pessoa repleta de dramáticas experiências pessoais, incluindo a perda de parentes próximos, a prostituição forçada, o assédio de homens mais velhos, um casamento destruído pelo machismo, ausência de profissão e carência de dinheiro, cujos sofrimentos todos somados não se sabe dizer se lhe causaram a loucura da qual ela é considerada portadora ou foi a loucura a solução que Estamira justamente encontrou para suportá-los e, num certo sentido, superá-los.
De todo modo, Estamira é oficialmente louca e por isso recebe tratamento psiquiátrico através de um posto de saúde especializado em doenças mentais do Rio de Janeiro.
O filme não mostra o contrário disso: Estamira foi filmada em vários momentos de seu triste cotidiano (o documentário levou mais de dois anos para ficar pronto), em muitos dos quais ela demonstra estar emocionalmente alterada, quer pelos remédios psiquiátricos, quer pelo álcool ou por simples mal humor. Esse espontaneísmo do filme resultou em algumas cenas bastante desagradáveis e degradantes de se ver, tais como o momento das ofensas e pragas que Estamira dirige ao seu próprio filho, devido a um desentendimento de opinião religiosa entre ambos. Ou então o momento em que ela, indignada com a pergunta de seu pequeno neto, altera-se de maneira exagerada e histérica, abaixando o calção e mostrando suas partes intimas para o infeliz garoto enquanto aos berros gritando que era dali, de seu ventre descoberto, que todos vieram, toda a família dele, do neto.
A inclusão dessas lamentáveis cenas no filme disponibilizado para exibição coletiva, nos faz pensar que não era intenção do diretor Marcos Prado provar ou demonstrar que Estamira é ou não é a louca que muitos acreditam ser, mas tão somente a de registrar uma vida em que a loucura está presente em todos os cantos, seja ali naquelas brigas familiares dentro das frágeis paredes do barraco, seja lá na rua sem luz dos postes e onde os estupros acontecem, seja lá no vai e vem dos caminhões que trazem o lixo das grandes cidades do Rio de Janeiro para os braços dos catadores que em seus sacos imundos vão guardando os restos do que a sociedade usou e desprezou.
As imagens do cotidiano do Aterro Jardim Gramacho são impressionantes e formam uma moldura dramática perfeita para o diretor apresentar Estamira ao público: na longa abertura do filme, Estamira é filmada desde o momento em que sai de seu barraco, vai para rua esperar o ônibus, atravessa a pé longas estradas empoeiradas, atravessa poças de água suja até chegar ao seu lugar de trabalho, o Aterro Gramacho, cuja seqüencia termina com ela vestindo seu macacão de trabalho. Tudo isso em branco e preto e com algumas imagens propositalmente com efeitos pontilhados. No aúdio, uma música perturbadora, como um longo grito.
Somente a seguir, na próxima seqüencia, com imagens coloridas, é que finalmente podemos conhecer Estamira. Ela agora nos fala de sua história, explica seu nome, seu nascimento, seu casamento. Aos poucos, novas cenas vão nos mostrando sua vida com mais detalhes: a convivência com os filhos, os netos, os amigos, suas lembranças do passado, suas visitas ao psiquiatra.
Em todos esses momentos, a câmera do diretor busca captar os detalhes do ambiente: o vidro de esmalte quase vazio que Estamira segura entre os dedo enquanto fala de sua vida, a arandela da lâmpada pendurada com arame no teto do barraco, os cãezinhos que disputam uma velha boneca de pano entre os dentes, uma aranha pendurada em sua teia, detalhes esses que compõem a surpreendente profusão dos mais variados objetos e situações que só um lugar como um aterro sanitário pode oferecer aos olhos das pessoas mais sensíveis aos problemas da nossa sociedade.
Mergulhada nisso que podemos chamar sem medo de errar de a sujeira da sociedade, a Estamira que o filme mostra vai além, porém, de uma pessoa desvairada, nervosa e indignada com as injustiças da sua vida. Muito além disso, a Estamira que busca se auto-afirmar - ela usa a câmera de filmagem para isso, em seus monólogos - é uma pessoa consciente das forças que determinam os acontecimentos da vida e que, justamente por entendê-las, isto é, de sentir-se uma espécie de iluminada espiritual, vê-se afastada da maioria que não entende nem busca o entendimento disso.
Mas, embora presa na solidão dos seus pensamentos, a Estamira que o filme quer mostrar não ê a Estamira louca e agressiva, moralmente desacreditada pelos atestados de sanidade mental, - mas sim a Estamira eloqüente, de raciocínio rápido, arguta, crítica, surpreendentemente lógica, apesar de todas as expectativas em contrário.
Mas qual então o entendimento de Estamira sobre as forças da vida? Como é seu conhecimento sobre isso? Como ela explica e justifica os acontecimentos tão dramáticos de sua vida e as desigualdades e injustiças que ela vê todos os dias, em cada novo caminhão de lixo que vem descarregar no Aterro do Gramacho?
Não é tarefa fácil resumir o pensamento de Estamira. A primeira barreira a vencer é lingüística: ela fala a língua portuguesa de maneira muito pessoal (para não dizer egocentricamente), demonstrando muita criatividade e liberdade para inventar palavras quando não se lembra ou não encontra as palavras mais adequadas no repertório convencional. Para os puristas da língua portuguesa, a maneira de falar de Estamira é com certeza um escândalo, talvez uma prova a mais de sua loucura.
A segunda barreira, que é uma conseqüência inevitável da primeira e também a mais difícil, é semântica: o conhecimento de Estamira é hermético, fechado em si mesmo, com pouca racionalização e poucas referências ao universo dos demais conhecimentos comumente compartilhados pelos seres humanos. Isto é, para entendê-la, temos que ter uma boa dose de intuição tanto quanto de razão, pois o conhecimento de Estamira é do tipo "iluminação".
O conhecimento por iluminação, intuição ou inspiração, que alguns psicólogos modernos também chamam de insight, é um fenômeno psicológico relativamente comum, que acomete a todo ser vivente mais ou menos dotado de sistema nervoso, pois é um conhecimento do tipo instantâneo, que se caracteriza pela descoberta rápida para um problema que esteja ocupando nossa mente. Todas as pessoas mais ou menos saudáveis têm seus momentos de conhecimento inspirado, intuitivo ou iluminado e se comprazem com isso, em geral, pois é sempre prazeroso para o nosso cérebro resolver as questões que o aflige.
Estamira usa e abusa de sua capacidade de aprender e elaborar conhecimento intuitivamente.
Eu, por já ter visto o filme várias vezes (acho que umas 6 vezes!!) em minhas aulas de Teoria do Conhecimento e também por já ter ouvido muitos comentários interessantes e observado muitas reações diferentes, positivas e negativas ao filme e à própria Estamira, tenho para mim que Estamira é como o anjo sujo de que nos contam as fábulas, mas um anjo moderno, caido de um céu límpido e puro para uma terra de lixo e entulho, um anjo que veio nos falar da feiura e loucura desse nosso mundo consumista, um anjo que veio vasculhar o nosso lixo e nos alertar da nossa própria sujeira de humanos que estamos deixando sobre o Planeta (coitado, que não tem nada a ver com os nossos problemas, mas é o que mais sofre!)
Aliás, acho que essa é a maior mensagem do filme: "veja como a loucura faz parte da vida capitalista, consumista".
Em relação aos conteúdos das aulas de Teoria do Conhecimento, relaciono Estamira com o senso comum e a filosofia.
O conhecimento de Estamira pode ser caracterizado como senso comum devido, em primeiro lugar, à sua origem popular, tendo ela recebido, pelo que sei, pouca educação escolar e aparentemente tendo recebido pouca influência dos meios de comunicação de massa. Muito embora isso, Estamira demonstra uma capacidade admirável de fazer conexões semânticas entre suas idéias e a das pessoas mais cultas, inclusive usando de expressões de uma rara pureza linguística (por exemplo 'quer-me"). Mas Estamira não demonstra maior respeito ao universo científico e acadêmico mais tradicional. Ela trata os cientistas com desconfiança ("eles não sabem nada do "além dos aléns") e aos professores e estudantes reserva uma crítica bastante afiada, acusando-os de serem apenas "copiadores". A médica que a atende e lhe prescreve seus medicamentos também recebe dela o mesmo tratamento, "uma copiadora".
A maneira pessoal de Estamira de organizar conceitualmente suas idéias sobre a vida e a sociedade baseia-se na divisão básica entre bem e mal, que é uma das formas de pensamento mais antigas do ser humano. No caso de Estamira, o bem é Deus e o mal é o Trocadillo. Essas duas forças governam este mundo, no qual o ser humano é "o único condicional", talvez com essa expressão ela querendo dizer que o humano é o único ser que está sujeito a alguma condição especial para viver ou plenamente ser realizar. O homem e mulher nas concepções de Estamira, são chamados de humano ímpar e humano par, respectivamente, e aos quais ela atribui papéis sociais definidos, como o de mãe, pai, filho, filha.
Essas simples concepções de Estamira, porém, dão um passo além do mero senso comum e podem também ser vistas como uma filosofia de vida. E, como toda boa filosofia de vida, também como uma atitude ética de viver. De viver corretamente, dignamente. O que, pelo contexto de vida de Estamira, não deixa de ser algo paradoxal e surpreendente.
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Página oficial do filme: http://www.estamira.com.br/
Resenha do OVERMUNDO: http://www.overmundo.com.br/overblog/estamira-e-a-orquestracao-do-mundo
Resenha do COM CIÊNCIA: http://www.comciencia.br/comciencia/?section=8&edicao=32&tipo=resenha
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documentarios como este faz nos ver a nossa propria
ResponderExcluircegueira e nos revelam pessoas antes invisiveis parabens